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Gestão de Energia: organização e método

Empresas com muitas unidades, operações distribuídas e uma grande quantidade de ativos vivem um desafio silencioso: a complexidade do próprio consumo e custo de energia. Quando dezenas, centenas — ou milhares — de contas, distribuidoras, tarifas e contratos se acumulam para análise e pagamento todos os meses, entender o comportamento (e custo) real da energia deixa de ser trivial. É nesse cenário que a gestão de energia deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade operacional básica de uma empresa.

Na prática, gestão de energia pode significar muitas coisas dependendo do contexto da empresa, não é apenas olhar para as faturas. Envolve criar um processo contínuo de análise, controle e tomada de decisão sobre como a empresa utiliza, contrata e paga pela energia elétrica. É um trabalho que combina organização, método e disciplina. Ele pode ser até ser tecnológico, mas no fundo é um processo empresarial comum: definir rotinas, medir o que importa e garantir que cada unidade esteja sob o mesmo padrão de acompanhamento. Isso parece óbvio, mas no dia a dia de gestores com pilhas de problemas para resolver, o desafio é simplesmente real.

Quando falamos em energia inteligente, as pessoas logo pensam que estamos nos referindo a sensores, Inteligência artificial ou sistemas super complexos de automação. Energia inteligente na verdade é algo que começa com ordenação de informações — saber onde estão os maiores gargalos do processo, o perfil de custo energético dos ativos e o quanto foi desperdiçado nas contas em determinado período. Sem isso, qualquer solução tecnológica vira apenas mais uma fonte de dados desconexos.

Nível de Gestão de Energia nas Empresas

Os níveis de gestão de energia nas empresas costumam evoluir por dois motivos. Ou o time de gestores/controladores é muito orientado à dados e já sabe da necessidade de investir em controle e organização OU ( o mais comum), a empresa está crescendo mês após mês e as dores administrativas geradas por realizar um processo fraco de gestão de energia simplesmente não podem ser mais contidas. São empresas que se enfiam em situações complicadas, exemplos:

  • A sustentação de um time inteiro só para monitorar a emissão de novas contas de luz e capturar cada uma delas manualmente. O recorde que já encontramos por aqui, foi um time de 12 pessoas (sim, você leu certo. A empresa pagava um time de 12 pessoas presenciais para capturar contas de energia nos mais variados portais de distribuidoras e em seguida digitar essas contas no excel, para que por fim seja enviada para o time financeiro). Além do custo de se manter isso, as pessoas precisaram ser treinadas continuamente (turnover alto na função) e a quantidade de erros de digitação que eram gerados era grande, o que era de se esperar, já que a possibilidade de alguém errar em uma tarifa que as vezes tem 5 dígitos depois da virgula é completamente compreensível.
  • Multas por atraso de pagamento. Essa daqui é fácil de encontrar em alguns mercados, especialmente na construção civil, pois as empresas abrem e fecham PDVs ou canteiros de obras o tempo todo e isso gera o caos, simples assim. A última vez que rodamos um bechmark para avaliar as que temos em nossa base, quase 4% do valor anual dos orçamentos de energia dessas empresas ia para multa por falta de pagamento. As vezes o problema é até outro, empreendimentos que já foram entregues há anos e a construtura ainda está pagando a conta de energia (é raro mas acontece bastante, rs).
  • Corte de energia ou impedimento de abrir novas praças. Outra super comum, principalmente com mercados em expansão rápida. Telecom, pontos de recarga de carros elétricos, etc.. A empresa expande rápido e perde o controle das contas, ficando inadimplente em algumas delas, o que ocasiona no corte de energia em determinados pontos. Nem preciso dizer o BO aqui. Ponto de recarga de veículo elétrico sem energia ou uma antena de telecom desenergizada. Além de perder dinheiro naquele ponto, algumas distribuidoras barram a abertura de novos pontos quando a empresa possui dívidas em aberto, o que significa não só um problema operacional e perda de receita do local inadimplente, mas também que nenhum novo local pode ser comissionado antes da pendência ser resolvida.

Jornada de Gestão de Energia nas empresas

Depois de viver situações com as dos exemplos acima, (assim como esperado) as empresas normalmente tomam um rumo de tentar resolver o caos, antes tarde do que nunca e isso pode ser feito em etapas, mas lógico, que isso depende das necessidades e realidade de cada empresa. Uma jornada comum é a seguinte:

  • Passo 1 – A empresa enxergar que TEM UM PROBLEMA e que ele precisa ser solucionado pois o impacto associado é representativo. De novo, parece bobo falar isso, mas é algo que encontramos o tempo todo, empresas claramente perdendo dinheiro, tempo em uma não gestão de energia, mas que os funcionários da área simplesmente não assumem ou para si, ou para seus superiores ou para quem seja.
  • Passo 2 – Bora tentar quantificar o tamanho da perda. Isso é particular da empresa, mas algumas formas são mais comuns, podemos fazer o exercício tentando responder perguntas em duas frentes:
    • [Financeiro] Quanto pagamos de multas nos últimos 12 meses? Quanto isso significa em relação ao total pago de energia no mesmo período?
    • [Financeiro] Quais são essas multas? Minha equipe sabe identificar cada uma delas? (Atenção aqui pois existem cobranças que nunca estarão listadas como multas na conta, mas são cobranças evitáveis).
    • [Financeiro] Os benefícios prometidos em meus contratos de energia estão sendo respeitados? (Mercado Livre e Geração Distribuída)
    • [Tempo] Quanto tempo em minutos a equipe leva para capturar todas as contas de energia em um mês comum? Quanto isso custa para e empresa?
    • [Tempo] Quanto tempo em minutos a equipe leva para digitalizar todas as contas de energia em um mês comum? Quanto isso custa para e empresa?
    • [Tempo] Quantas ações de economia a equipe foi capaz de identificar nos últimos 12 meses?
    • [Tempo] Quantas ações de economia a equipe foi capaz de realizar nos últimos 12 meses?

Essas perguntas são ótimas para situar os gestores que iniciam esse tipo de questionamento. Se você não consegue responder nada, pelo menos já tem um norte de por onde começar. Tente avaliar seu processo de forma que consiga descobrir algumas dessas informações. Minha sugestão? Foque nas perguntas voltadas à tempo da equipe. Se quiser avançar ainda mais, o jogo é saber o tempo investido em identificar e analisar uma oportunidade de economia (pois são ações muito mais onerosas do que só capturar ou digitalizar uma fatura de energia).

  • Passo 3 – Identificar os principais gargalos, que podem ter sido descobertos ao analisar as respostas das perguntas acima ou até pela simples dificuldade em encontrar a resposta de alguma delas.
  • Passo 4 – Gargalos identificados, é hora de partir pra um desenho de processo que mexa com os ponteiros certos (aqueles identificados nos gargalos). Note, que as vezes o jogo nem tem que ver com energia em si. Diria que a maior parte das empresas hoje, ficaria presa logo de cara nos números de Tempo investido da equipe. É sempre uma surpresa (pro gestor não pra gente aqui) quando a empresa faz a conta descobre que tem colaborador gastando 2/3 dias inteiros toda semana só acessando portal de distribuidora, digitando usuário, senha e captcha pra pegar as contas. Os problemas /gargalos mais comuns que vemos, como exemplo:
  1. Tempo elevado investido na captura das contas
  2. Tempo elevado investido na digitalização das contas em um excel
  3. Time precisa de um manual para saber o que é cada dado e informação presentes em cada modelo de fatura de energia no Brasil
  4. Taxa de erro e retrabalho gerado por conta de erros na digitalização das contas de energia
  5. Zero oportunidades de melhoria identificadas no período
  6. Ausência de orçamento energético e seu acompanhamento constate
  7. Zero controle dos benefícios prometidos por comercializadoras ou empresas de GD que fornecem para a empresa

Os motivos para avançar nessa jornada são claros. Uma empresa que se organiza energeticamente consegue identificar desperdícios antes que eles cresçam, antecipar perdas financeiras, evitar cobranças indevidas e contratar energia de forma mais inteligente. Em ambientes competitivos, custo de energia é margem — e margem perdida por falta de gestão dificilmente é recuperada depois. A gestão inteligente de fornecimento de energia elétrica é, acima de tudo, um mecanismo de proteção financeira.

Esses aspectos que comentei acima são pouco discutidos: onde a dificuldade central não é técnica — é administrativa. Consolidar faturas, equalizar centros de custo, entender cada contrato, acompanhar bandeiras tarifárias, revisar demandas e reativos… tudo isso acontece simultaneamente, mês após mês. É um fluxo complexo, com alto risco de erros manuais e perda de informações. Quando o volume cresce, a falta de organização simplesmente impede a visão do todo.

É por isso que, nessas organizações, gestão de energia e gestão de contas são parte da mesma engrenagem. Não adianta analisar consumo se as contas chegam descentralizadas. Não adianta revisar tarifas se os dados não estão padronizados. E não adianta discutir eficiência energética sem corrigir primeiro a base operacional. Empresas que se perdem nesse volume geralmente não falham na análise — falham na estrutura.

Nesse contexto, surgem as soluções de controle de energia, que ajudam a transformar dados brutos em informação útil. Elas permitem classificar unidades, comparar desempenhos, detectar anomalias e construir indicadores consistentes. Mas vale reforçar: nenhuma ferramenta funciona plenamente sem processo. Sistemas existem para organizar aquilo que a empresa decidiu organizar. O ganho surge quando tecnologia e rotina se encontram.

A partir dessa organização, o papel do sistema de gestão de energia se torna o centro de inteligência operacional, conectando times, padronizando análises e reduzindo a dependência de planilhas. É aqui que a empresa ganha escala: quando o nível de maturidade energética permite que as equipes invistam tempo em atividades de algo valor agregado. Atividades que ocasionam em economia de tempo da equipe ou economia financeira no orçamento energético da empresa.

O resultado dessa jornada não é apenas redução de custo, embora isso naturalmente aconteça. O que muda é a previsibilidade, a confiabilidade das informações e a capacidade de tomar decisões baseadas em dados — algo especialmente crítico em empresas com muitos ativos e processos descentralizados. Energia passa a ser tratada como um insumo estratégico, e não como uma despesa inevitável. E fica fácil fácil responder aquelas perguntas que coloquei lá em cima.

No fim das contas, falar de gestão de energia elétrica é falar de organização empresarial. É alinhar procedimentos, padronizar análises, eliminar ruídos e permitir que o time enxergue o comportamento energético de forma clara. Quando essa estrutura existe, todo o resto — do controle de custos às iniciativas de eficiência — ganha força e gera resultados reais. Gestão de energia é, antes de tudo, método.

Rafael Turella

Rafael Turella

Engenheiro ambiental pela UNESP e mestre em Sistemas Sustentáveis com ênfase em Energia pelo Rochester Institute of Technology. É co-fundador da CUBi e atualmente responsável pela área de marketing e vendas.

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