Métricas de performance energética e seus indicadores.

Nos dias de hoje, o monitoramento de dados de consumo energético é um passo necessário porém raramente é suficiente para uma gestão energética verdadeiramente útil. Já falamos sobre contextualização dos dados de consumo energético aqui e aqui, mas no post de hoje vamos abordar especificamente as métricas de performance energética e os indicadores que podem ser desdobrados delas. Fazer gestão de energia sem um indicador é equivalente a correr em círculos. Por outro lado, usar um indicador energético errado pode te forçar a medir a distância entre duas cidades usando um paquímetro. Continue lendo que esse post vai ser bem útil pra quem está precisando mostrar métricas e indicadores e também para quem tem interesse em aprimorar as práticas de gestão energética em sua empresa.

métricas de performance energética
Gestores gerindo energia sem desenvolver uma métrica de performance.

Vamos separar esse post em cinco partes:

  1. Qual a diferença entre métrica e indicador? Qual usar?
  2. Por que investir tempo no desenvolvimento de métricas de performance energética e indicadores?
  3. Quais são os sinais de que você precisa de métricas e indicadores de performance?
  4. Quais são os sintomas que mostram que seus indicadores precisam de ajustes?
  5. Quais são os sinais de que seu indicador está bem posicionado?

1 . Qual a diferença entre métrica e indicador? Qual usar?

O primeiro passo é entender um pouco da nomenclatura das coisas e ela é válida não só para energia mas também para qualquer tipo de sistema de controle que ocorre na empresa. Os termos a seguir sempre causam confusão e levantam discussões entre equipes, então é sempre importante um alinhamento prévio entre gestores, áreas e equipes para não haver confusão no decorrer dos projetos.

Métricas são medidas brutas de composição simples, como por exemplo: quantidades (unidades produzidas), volumes (kg de resíduo gerado), valores financeiros (R$ faturados), etc… São medições importantes para o controle de uma empresa, mas por si só não são comumente usados em um nível gerencial, para a tomada de decisão. Para isso, existem os indicadores.

Os indicadores são elementos mais compostos, calculados usualmente através da interação matemática de um conjunto de métricas. Você pode ter escutado vários termos aqui, como os KPI – indicadores chave de desempenho (Key Performance Indicator) ou mais raro e específico, os IDEs – indicadores de desempenho energético, uma nomenclatura focada na área de energia, mas que honestamente é muito incomum na prática fora da implementação de uma ISO 50.001 ou dentro de um protocolo IPMVP (International Performance Measurement and Verification Protocol). 

Para a realidade da maioria da indústria, o importante é entender que usaremos ambos; as métricas precisam ser medidas porque serão o insumo base para preparar os indicadores, que por sua vez serão os valores chave para efetivamente entender o desempenho da empresa e fazer seu acompanhamento. É com base nesses indicadores que são traçadas metas e planos. 

 2 – Por que investir tempo no desenvolvimento de métricas de performance energética e indicadores?

Como dissemos no início, monitoramento energético é o primeiro passo. Ele será o responsável por gerar boa parte das métricas. No entanto, informações de consumo (ou demanda, corrente e tensão) em tempo real são dados brutos que quando tomados isoladamente não carregam muita informação prática para a tomada de decisão. É como se você tivesse embarcado em um carro e só tivesse a informação de velocidade, sem saber se está indo para frente ou para trás. Informações complementares são tão importantes quanto o próprio consumo energético para contextualizar esses dados. Vamos a um exemplo simples (e real):

Posso consumir 14.000 kWh em um único dia e no outro consumir 25.000 kWh (essas são métricas). O segundo dia teve performance pior? Não necessariamente. E se agora eu te dissesse que no primeiro dia produzimos 10.000 peças e no segundo dia produzimos 21.000 peças (outra métrica)? Teríamos 1.4 kWh/peça no primeiro e 1.2 kWh/peça no segundo (esses já são indicadores). O segundo dia não parece tão mal, certo?

Às vezes precisa de matemática básica pra fazer seu indicador.

A ideia em geral é que se conheça o(s) fator(es) que mais impactam no consumo energético diretamente. No caso acima, nosso cliente produz peças automotivas e realmente o número de peças produzidas tem uma correlação direta com o consumo.

Pode existir mais de um fator influenciador? Sim! A complexidade de um bom indicador de performance energética deve ser a menor possível. O gestor precisa saber explicar exatamente por qual motivo escolheu aquele indicador (composto por aquelas métricas) e o que o fez o ponteiro mexer de um dia/semana/mês para outro. No entanto, existem casos em que vários fatores influenciam o consumo em proporções que tornam impossível considerar apenas um fator.

O segredo do sucesso é traduzir a realidade complexa em métricas âncora simples o bastante para não causar confusão e facilitar o entendimento dos processos monitorados. Um ótimo exemplo são as lajes comerciais, um dos que lidamos praticamente todos os dias aqui na CUBi em escala internacional. O consumo de um escritório depende de fatores como: número de pessoas ocupantes, área útil, volume útil, diferença de temperatura externa e interna e época do ano. Muita coisa certo? Vamos separar aqui alguns cenários em que a importância de considerar todos esses fatores vai aparecer naturalmente.

Você inicia a gestão comparando apenas consumo energético em kWh

Visão do gestor: De um mês para o outro seu consumo aumenta em 30%. Seu chefe pede explicação e você coloca culpa na medição que só pode estar errada.

Realidade: a empresa recebeu os colaboradores de uma filial por 20 dias em seu escritório matriz, o maior número de pessoas no escritório aumentou o consumo das tomadas e também do ar condicionado pois as pessoas são fontes de calor e isso aumenta a demanda do ar condicionado.

Com base no ocorrido no mês anterior o gestor muda o indicador para kWh/pessoa:

Visão do gestor: Mesmo com práticas de gestão bem parecidas, o indicador (kWh/pessoa) dos quatro prédios que você gerencia estão super diferentes. (E agora? Comparo com o que? Qual está certo?)

Realidade: Os prédios têm áreas diferentes e não necessariamente quem tem mais pessoas tem mais área (basta pensar na sua empresa, em área (m2), a diretoria normalmente ocupa uma área mais ampla e tem menos pessoas).

Dado o ocorrido no mês anterior o gestor muda o indicador para kWh/pessoa*m2

Esse é um processo de descoberta e experimentação bem comum de acontecer. Claro que não há sempre a necessidade de considerar todas as variáveis possíveis, mas é importante saber identificar as principais para que o indicador realmente sirva como uma ferramenta de gestão. O conceito em geral é de que gerir energia nunca deixará de se apoiar em algumas perguntas-chave que todo gestor deve saber responder e que necessariamente passam por construir um indicador:

  • Por que se consome energia?
  • Como se consome energia?
  • Onde se consome energia?
  • Quanto se consome de energia?

Por fim, muito se fala em novas tecnologias e troca de equipamentos para desenvolver ações de eficiência energética. O segredo que pouca gente compartilha é que a melhor forma de economizar energia é quando você consegue substituir consumo energético pela gestão. Essa economia é certamente mais sustentável que qualquer ação em específico ou fonte de energia renovável. Além disso, torna o processo de busca por oportunidades de eficiência em sistemático ao invés de pontual. A troca de equipamentos é sempre interessante e pode trazer resultados muito bons e de maneira rápida, mas se não existem processos, controle e gestão, é bem possível que em pouco tempo o equipamento novo será usado de maneira displicente e acabará por consumir/custar o mesmo que o anterior (ou até mais). Estamos cansados de ver empresas no mercado que fazem a troca de seus equipamentos de ar condicionado por exemplo, investem recursos consideráveis e acabam por ver um aumento no custo mensal, principalmente pela mentalidade dos usuários de que: “Esse é mais eficiente, é tranquilo deixar ligado”. 

3. Quais são os sinais de que você precisa de métricas e indicadores de performance?

A necessidade de gestão e construção de um indicador próprio aparece em situações específicas que são bastante previsíveis:

  1. Estabelecimento de metas internas, setoriais ou até globais da empresa;
  2. Alguma ação de eficiência energética será aplicada e surge a necessidade de acompanhar indicadores de consumo antes e depois do comissionamento das ações (medir resultado / acompanhamento);
  3. Quando há escassez de recursos e múltiplos ativos, as métricas de performance também são úteis para indicar quem são os ativos mais e menos eficientes;
  4. Quando existe a aplicação de Sistemas de Gestão Energética ou busca-se certificação ISO 50.001.
Gestor: conte-me mais sobre estes sinais, jovem.

4. Quais são os sintomas que mostram que seus indicadores precisam ser ajustados?

Métricas de performance energética erradas se manifestam de diversas formas, seu sintoma mais perigoso realmente é de des-informar. Um exemplo: em um escritório o indicador utilizado é kWh/m2*pessoa e esse indicador entre o mês de Março e Abril caiu em 23%. Se o gestor olhar apenas para o indicador talvez fique com a impressão de que realmente reduziu sua intensidade energética em 23%, no entanto, ao avaliar outras variáveis podemos ver que a temperatura média do mês de Março foi de 28℃ e a temperatura média do mês de Abril foi de 21℃. Ao normalizar os dados pela temperatura a diferença entre o indicador de Março e Abril cai para 6% de redução no indicador.

Aqui são duas as soluções, o gestor pode tanto propor uma comparação com dados históricos da mesma época do ano ou performar essa normalização de acordo com a temperatura média. Esse caso pode ser extrapolado para qualquer outra carga que seja sensível à temperatura.

O importante é que, caso o gestor não tenha a visão completa, pode acreditar que está economizando ou consumindo mais do que a realidade. Objetivamente, os sintomas mais comuns são:

  1. Variações bruscas dos indicadores de performance sem explicações fundamentadas em ações;
  2. Seus pares na indústria usam indicadores muito diferentes;
  3. Métricas de performance energética caem em desuso na gestão do dia-a-dia;
Gestor notou que a métrica dele estava errada

5. Quais são os sinais de que seu indicador está bem posicionado?

Um indicador bem construído tem três características principais:

  1. Anula (ou normaliza) efeitos de fatores independentes;
  2. Reflete mudanças reais da performance de uma operação;
  3. É utilizado na gestão do dia-a-dia e reportada para liderança.

Se você precisa de ferramentas para ter acesso a suas métricas e criar seus próprios indicadores, estamos prontos para te ajudar! Entre em contato para batermos um papo sobre gestão energética!

Ricardo Dias

Engenheiro ambiental e urbano pela UFABC e mestre em Sistemas Sustentáveis com ênfase em Energia pelo Rochester Institute of Technology. É co-fundador da CUBi e atualmente CEO.

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