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Tarifa Branca – O que é? Como funciona? E vale a pena?

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Nós estamos mais do que acostumados a pagar diferentes contas no decorrer do mês. Algumas são fáceis de entender, outras nem tanto. A conta de energia é uma que levanta um monte de perguntas dos consumidores, e isso não acontece à toa já que temos dezenas de distribuidoras de energia no Brasil e cada uma delas têm seu próprio padrão de conta. Agora que existe a possibilidade de adicionar mais um termo, a Tarifa Branca, mais pessoas podem ficar confusas.

Se você precisa de ajuda para entender os vários elementos de sua conta, nós já falamos sobre isso neste post (CUBi – Conta de Luz). Um dos elementos mais comum de discutirmos dentro de uma conta de energia e o que provavelmente a maioria conhece é o preço por cada kWh consumido. Você pode até não entender o que exatamente é um kWh, mas precisa saber que para cada unidade de energia consumida você paga um valor no final do mês.

Para clientes de baixa tensão (usualmente residências, pequenos comércios e pequenas indústrias) só existiu durante muito tempo a tarifa convencional, onde o kWh consumido custava exatamente o mesmo em qualquer horário do dia ou da semana, exemplo: você pode passar roupa às 5 da tarde ou às 5 da manhã que o custo de energia para isso é o mesmo.

E deveria ser diferente?

Sim, a verdade é que para os atores do setor elétrico brasileiro, o custo varia em diferentes períodos do dia e isso acontece porque existem momentos de maior ou menor demanda na nossa matriz nacional. O sistema elétrico nacional é muito parecido com um estacionamento. Ele é projetado para suprir o momento de maior demanda, mas boa parte do tempo fica ocioso, com vagas livres. O melhor dos cenários seria que o consumo do país inteiro fosse constante durante todas as horas do dia da semana, mas não é bem assim. As empresa que são do grupo de tarifação A não convencional já conhecem essa realidade faz tempo. Suas contas de energia já são divididas entre horários de ponta e horários fora de ponta. Isso significa que tem um momento durante o dia que a demanda do sistema é alta e, portanto, é necessário ter todas as vagas preparadas para serem ocupadas, e isso custa mais caro que ter poucas vagas disponíveis, esse custo é repassado para os consumidores do grupo que pagam mais caro para consumir energia no momento do horário de ponta. Esse custo adicional ajuda a amortizar os gastos elevados de ter as vagas disponíveis e também de certa forma incentiva empresas a não consumir tanta energia no horário de ponta quando o sistema já está bastante ocupado.

Deixo um exemplo da importância de se estar atento ao horário de ponta em empresas do grupo A. É muito comum que vejamos razões de 1 para 3 em nossos clientes. Traduzindo, alguns clientes consomem apenas 10% de todo seu consumo durante o horário de ponta de suas distribuidoras, porém esses 10% de consumo refletem em uma parcela de 30% de suas contas de energia. Empresas que não estão atentas e controlando seus horários de consumo, podem acabar pagando muito caro pela desatenção.

Pois bem, isso eram as empresas do grupo A, mas desde o início de 2018, uma parcela de consumidores de baixa tensão (grupo B que consomem mais do que 500 kWh/mês) passaram a ter acesso a um mecanismo semelhante. Esses consumidores representam apenas 5% do grupo, já que a média de consumo residencial, por exemplo, é de 160 kWh/mês, mas mesmo assim foi um começo. O ano de 2018 passou e não falamos muito na modalidade, que a propósito é chamada de Tarifa Branca. Seguindo o planejamento da ANEEL, em 2019 passaram a poder acessar o benefício unidades consumidoras com consumo médio de 250 kWh até 500 kWh, o que eleva bastante os potenciais de clientes que podem aderir, sendo que essa parcela representa algo em torno de 19% do total do grupo.

 

E como funciona a Tarifa Branca? Vale a Pena?

A tarifa branca é basicamente um mecanismo que institui valores diferentes de custo de energia para distintos períodos do dia. Lembra aquele exemplo do estacionamento? É o mesmo que dizer que o preço para estacionar no meio da madrugada é mais baixo do que se você precisar estacionar em um momento que o lugar está cheio de outras pessoas procurando vagas, faz sentido não?

A Tarifa Branca é divida em 3 períodos, que variam de distribuidora para distribuidora, mas que são chamados de:

  • Horário de Ponta: os momento de maior demanda energética no sistema elétrico ou de lotação do nosso estacionamento exemplo;
  • Horário intermediário: os momentos um pouco antes de entrar em ponta e logo após sair da ponta;
  • Horário Fora de Ponta: os momentos de menor demanda energética ou de menor lotação do nosso estacionamento.

 

Para ficar mais fácil ainda, vamos pegar os valores da CEMIG antes de impostos como exemplos:

  • Se estamos falando de tarifas residenciais, hoje na CEMIG paga-se 0,58684 R$/kWh consumido.

Agora com a Tarifa Branca:

  • Horário de Ponta: 17:00h às 20:00h – valores muito mais altos que o convencional; 1,13617 R$/kWh (aumento de  93%)
  • Horário intermediário: 16:00h às 17:00h e 20:00h às 21:00h – valores ligeiramente mais altos que o convencional; 0,73035 R$/kWh (aumento de 24%)
  • Horário Fora de Ponta: demais horários – valores mais baixos do que o convencional; 0,47923 R$/kWh (redução de 18%)
  • Finais de semana e feriados são considerados inteiramente em horário fora de ponta

Agora, para o jogo valer a pena, você deve conhecer um pouco do seu perfil de consumo. Se brincarmos com diferentes números, é possível tanto reduzir em cerca de 20% o valor da sua conta de energia como também elevar em uns 80%. Na tarifa branca, tudo depende do momento em que se dá o consumo.

Em exemplos, se a sua família passa o dia inteiro em casa, inclusive nos horários de ponta, a chance de valer a pena é pequena, mas se você mora sozinho(a), passe o dia inteiro fora e só chegue às 21h em casa para fazer suas coisas, ou só usa o imóvel no final de semana, ou o seu comércio só funciona no horário do almoço, a tarifa branca pode ser uma ótima opção. Lembre-se que esses são apenas exemplos, a regra é: Conheça seu perfil! Você pode fazer isso de diferentes maneiras, mas algumas distribuidoras já oferecem até calculadoras para te auxiliar a descobrir se vale a pena ou não. A ENEL aqui por exemplo.

Essa página da ANEEL também é interessante e traz uma série de exemplos com imagens sobre situações que valem ou não à pena. AQUI.

E no final das contas, essa tarifa é vantajosa para todos?

Essa é uma boa discussão. A verdade é que muitos acreditam que com a migração de poucos consumidores, a receita da distribuidora vai ser reduzida e no final das contas, o dinheirinho que faltar vai ser dividido entre todos os consumidores, encarecendo as contas de energia. Mas sem dúvidas, a Tarifa Branca é um primeiro passo para diversas mudanças e aberturas em nosso sistema elétrico ainda tão conservador. Um momento seguinte muito esperado é a possibilidades de consumidores de baixa tensão poderem escolher livremente quem será seu provedor de energia, assim como fazemos hoje com a telefonia. Esse modelo já é praticado em diversos países e aqui no Brasil ainda não temos essa oportunidade.

E quais problemas podem aparecer com a Tarifa Branca?

Outro ponto interessante da discussão da Tarifa Branca é que estão sendo utilizados medidores inteligentes de energia para que seja possível fazer essa distinção de consumo / horário. Medidores que estão constantemente conectados e enviado dados. Você pode ler mais sobre medidores inteligentes aqui (CUBi – medidores de energia inteligentes). O uso e disseminação desses medidores traz vários potenciais importantes, como por exemplo, oferecer aos consumidores acesso à seus perfis de consumo em tempo real (ao invés de precisar quebrar a cabeça com aquelas ferramentas que citei a pouco).

Os grandes problemas residem em segurança de dados, transmissão de informações e também nas definições de quem tem direito de uso dos dados e como. Lembrando que dados de consumo energético são bastante sensíveis. Com ferramentas de análise e expertise é possível saber muita coisa de quem está sendo monitorado. Aqui na CUBi por exemplo, através de consumo energético, conseguimos estimar até o número de colaboradores trabalhando dentro de alguns escritórios que monitoramos ou quantas toneladas foram produzidas nos últimos 15 minutos na empresa X. Mas para isso temos acordos de confidencialidade, transparência com nossos clientes e diversas estratégias de segurança de dados. As distribuidoras terão de ter cuidados semelhantes e criar mecanismos de transparência para lidar com clientes. Aqui nós conhecemos todos que atendemos e eles nos conhecem, mas as distribuidoras possuem milhões de pontos de consumo, o que eleva o nível de complicação.

Para finalizar, se você conhece seu perfil ou usou a calculadora e os números fazem sentido, basta entrar em contato com sua distribuidora para iniciar o processo de mudança. Se as coisas não saírem como o esperado, você sempre tem a chance de voltar à tarifação convencional, mas lembre-se que a burocracia com empresas de distribuição é sempre razoável e pode trazer dores de cabeça, então antes de optar pela Tarifa Branca tenha certeza das suas premissas e da sua matemática. Se você ainda não faz parte da faixa de consumo acima de 250 kWh mas ainda assim tem interesse no novo modelo de tarifação, basta esperar até 2020, momento no qual todos os outros consumidores de energia passarão a ter acesso ao modelo.

 

 

 

Rafael Turella cubi Rafael Turella   
Engenheiro Ambiental pela UNESP Sorocaba e mestre em Sistemas Sustentáveis com ênfase em Energia pelo Rochester Institute of Technology. É co-fundador da CUBi onde atua como responsável pelas áreas de análise de dados e comercial.

 

 

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